O PODER NO MODO RETRATO

O PODER NO MODO RETRATO

Há quem governe com decretos. Há quem governe com discursos. E há quem tenha descoberto uma ferramenta ainda mais eficiente para construir a própria imagem: a fotografia. Em tempos de redes sociais, uma câmera diante de um político pode valer quase tanto quanto um palanque. A lógica é simples. Se existe uma obra, fotografa-se o político diante dela. Se existe uma reunião, registra-se o político no centro da mesa. Se há uma autoridade importante, aproxima-se a autoridade do político. Se existe uma cerimônia, lá está ele, sorrindo, acenando, cumprimentando, inaugurando, entregando ou recebendo. A cidade acontece. Mas a fotografia faz questão de lembrar quem estava presente. O curioso é que, algumas vezes, a imagem parece ter mais protagonismo do que o próprio fato. A obra pública vira cenário. A comunidade vira plateia. O acontecimento vira moldura. E o agente público, invariavelmente, ocupa o primeiro plano. É o chamado poder em modo retrato. Não há nada de errado em registrar uma autoridade cumprindo suas funções. O problema aparece quando a comunicação pública parece funcionar como uma máquina permanente de fabricação de protagonismo. Nesse momento, uma pergunta simples começa a incomodar: a fotografia está informando o cidadão ou promovendo o político? A diferença pode estar em pequenos detalhes. Quem aparece na imagem? Quem fica de fora? Qual é o tamanho da fotografia do governante em relação ao tamanho da informação? O que está sendo comunicado: o resultado de uma política pública ou a presença de determinada pessoa? São perguntas importantes porque dinheiro público não deveria financiar culto à personalidade. O cidadão não paga impostos para assistir a um álbum de fotografias do governante. Paga para que serviços funcionem, obras sejam entregues, problemas sejam resolvidos e informações sejam prestadas com transparência. Mas existe uma tentação recorrente no mundo político: confundir gestão com visibilidade. É compreensível. A política contemporânea vive da exposição. Quem não aparece corre o risco de ser esquecido. Quem aparece todos os dias passa a impressão de estar trabalhando todos os dias. E, na era das redes sociais, a percepção muitas vezes chega antes do fato. Uma fotografia bem escolhida pode produzir em segundos aquilo que uma administração inteira levaria meses para explicar. O político sabe disso. O fotógrafo sabe disso. O assessor de comunicação sabe disso. E, principalmente, os algoritmos sabem disso. A imagem sorridente circula. A pose institucional gera curtidas. A inauguração vira postagem. A reunião vira publicação. A visita vira notícia. E, pouco a pouco, a fronteira entre comunicação pública e marketing político pode ficar perigosamente borrada. Existe ainda uma ironia nisso tudo. Quanto mais o político aparece em fotografias para demonstrar que está fazendo, maior deveria ser a cobrança para saber o que, de fato, foi feito. Porque fotografia não substitui resultado. Um sorriso não pavimenta uma rua. Um aperto de mãos não reduz uma fila. Uma inauguração não garante que o serviço funcionará adequadamente. Uma placa com o nome da obra não resolve o problema que justificou sua construção. A câmera registra o momento. A população vive o depois. E é justamente no depois que a fotografia perde seu poder. Quando a cerimônia termina, os convidados vão embora, os flashes se apagam e as redes sociais seguem para a próxima postagem, ficam os problemas concretos: a rua, a escola, o posto de saúde, o transporte, a iluminação, a segurança, o atendimento público. É ali que uma gestão precisa aparecer. Sem fotógrafo. Sem filtro. Sem legenda. Porque o verdadeiro poder de uma administração pública não está na quantidade de vezes em que seu governante aparece no centro da fotografia. Está na capacidade de produzir resultados mesmo quando ninguém está olhando. No fundo, talvez essa seja a fotografia que mais interessa ao cidadão: aquela que não precisa ser publicada para existir. © 2026 – Aroni Fagundes – Todos os direitos reservados

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