POR QUE O MAL VIRALIZA E O BEM PRECISA SE EXPLICAR ?
Há uma cena que se repete todos os dias, diante dos nossos olhos, nas telas dos celulares: uma briga explode, uma injustiça é cometida, alguém é humilhado, uma mentira ganha milhares de compartilhamentos. Em poucos minutos, aquilo já atravessou grupos de família, rodas de conversa e redes sociais. O mal parece ter pernas próprias. Corre. Grita. Provoca. Incendeia. O bem, curiosamente, costuma andar de passos mais lentos. Quando alguém faz uma doação, acolhe um desconhecido, perdoa uma dívida, salva um animal, ajuda um vizinho ou simplesmente decide não revidar uma agressão, quase sempre há menos barulho. E, quando a história chega ao público, surge a pergunta: quem fez? Por quê? O que ganhou com isso? Será que não havia interesse? Será que foi marketing? É como se a bondade precisasse apresentar documentos para provar sua inocência. O mal, não. O mal chega sem currículo. Talvez exista uma explicação para essa desigualdade. O escândalo desperta imediatamente nossa atenção. A indignação nos mobiliza. O medo nos mantém alertas. A raiva nos dá a sensação de que precisamos tomar partido. O algoritmo das redes sociais, por sua vez, percebe rapidamente aquilo que provoca reação — e entrega mais. Assim, uma ofensa pode valer mais cliques do que um gesto de solidariedade. Uma mentira bem construída pode viajar mais depressa do que uma verdade cuidadosamente apurada. Uma tragédia pode receber milhares de comentários enquanto uma boa notícia passa quase despercebida. Não é necessariamente porque as pessoas amam o mal. É porque o mal faz barulho. O bem, na maioria das vezes, trabalha em silêncio. Há também algo desconfortável nessa história: nós mesmos colaboramos para a viralização daquilo que condenamos. Compartilhamos o absurdo para criticá-lo. Repassamos a mentira para desmenti-la. Publicamos a agressão para denunciar a agressão. E, sem perceber, transformamos o objeto da nossa indignação em protagonista. É a velha contradição humana: dizemos que não suportamos determinado comportamento, mas ajudamos a mantê-lo diante dos olhos de milhares de pessoas. Enquanto isso, o gesto simples de alguém que levanta cedo para cuidar de um parente doente, que prepara comida para quem não tem, que ensina uma criança sem cobrar nada ou que oferece uma segunda oportunidade raramente se torna notícia. Talvez porque o bem não produza a mesma adrenalina. Talvez porque a bondade não peça torcida. Ou talvez porque tenhamos nos acostumado tanto ao extraordinário que já não reconhecemos o valor do cotidiano. Precisamos admitir, entretanto, que existe uma responsabilidade jornalística nesse processo. O jornalismo não pode transformar a sociedade numa vitrine permanente de tragédias. Informar sobre o mal é necessário. Denunciar abusos é indispensável. Dar visibilidade às injustiças é uma das funções mais nobres da imprensa. Mas informar não significa alimentar a curiosidade mórbida. Existe uma diferença entre denunciar uma violência e espetacularizá-la. Entre revelar um problema e transformá-lo em entretenimento. Entre prestar serviço à sociedade e simplesmente disputar audiência. O jornalismo também pode procurar o que funciona. Pode contar a história de quem encontrou uma solução onde todos enxergavam apenas um problema. Pode mostrar comunidades que se organizaram. Professores que transformam vidas. Pessoas comuns que fazem coisas extraordinárias sem esperar aplausos. Isso não significa esconder o lado sombrio da realidade. Significa lembrar que ele não é a realidade inteira. Talvez o maior desafio do nosso tempo seja justamente este: aprender a não confundir aquilo que mais chama atenção com aquilo que mais importa. O mal viraliza porque é ruidoso, emocional e, muitas vezes, espetacular. O bem precisa se explicar porque é discreto, paciente e não costuma oferecer personagens fáceis para o espetáculo. Mas existe uma boa notícia. O bem não precisa necessariamente viralizar para existir. Ele continua acontecendo quando ninguém filma. Continua acontecendo quando não há curtidas. Continua acontecendo quando não há manchete. Está na mão estendida, na palavra que acalma, no pedido de desculpas, na honestidade de quem poderia trapacear, na coragem de quem decide não devolver violência com violência. Talvez seja hora de mudarmos também a pergunta. Em vez de perguntar apenas “por que o mal viraliza?”, deveríamos perguntar: o que estamos fazendo para que o bem seja visto, reconhecido e, principalmente, praticado? Porque uma sociedade não se transforma apenas denunciando aquilo que está errado. Transforma-se também quando aprende a enxergar, valorizar e multiplicar aquilo que está certo. E talvez o bem não precise de uma explicação tão longa. Precise apenas de mais espaço. Mais atenção. Mais exemplo. E, sobretudo, mais gente disposta a praticá-lo quando ninguém estiver olhando. © 2026 – Aroni Fagundes – Todos os direitos reservados