O IGNORANTE E O ARROGANTE

O IGNORANTE E O ARROGANTE

Todos nós somos ignorantes em muitas áreas. Não há nada de vergonhoso nisso. Eu, por exemplo, não entendo nada de astronomia. Não sei calcular a distância entre estrelas, não conheço as leis que movimentam os planetas e, se alguém começar a falar em buracos negros, talvez eu descubra rapidamente que o buraco, naquele momento, está na minha própria cabeça. Também não falo mandarim. Nem russo. Nem japonês. E, para ser sincero, às vezes tenho dificuldade até com certas palavras da nossa própria língua. Isso é ignorância. Mas existe uma boa notícia: para a ignorância há remédio. Chama-se aprendizado. Se eu decidir estudar astronomia, posso aprender alguma coisa. Talvez nunca me torne um cientista da NASA, mas pelo menos deixarei de olhar para o céu achando que tudo o que brilha é estrela. Se alguém me ensinar mandarim, com paciência e algumas décadas disponíveis, talvez eu consiga ao menos pedir um café sem receber, por engano, uma bicicleta. A ignorância reconhecida é humilde. Ela admite: — Não sei. E essas duas palavras, aparentemente tão simples, podem ser o começo de uma grande transformação. O problema começa quando a ignorância decide se fantasiar de conhecimento. É aí que entra a arrogância. O ignorante não sabe e pode aprender. O arrogante, muitas vezes, não sabe, não quer aprender e ainda fica ofendido quando alguém tenta explicar. Pior: ele transforma opinião em ciência, boato em verdade, preconceito em convicção e teimosia em personalidade. Apresente fatos. Ele responde com um vídeo recebido no grupo da família. Mostre dados. Ele tem uma “informação” que alguém lhe contou. Explique. Ele aumenta o tom da voz. Porque, para certas pessoas, quanto menor o argumento, maior precisa ser o volume. A arrogância tem uma característica curiosa: ela raramente se reconhece no espelho. O ignorante procura quem sabe. O arrogante procura quem concorda. O primeiro faz perguntas. O segundo distribui certezas. E, numa época em que qualquer pessoa pode carregar uma biblioteca inteira no bolso, nunca foi tão fácil aprender — e, paradoxalmente, nunca pareceu tão confortável permanecer desinformado. A internet colocou o conhecimento a poucos toques dos nossos dedos. Mas também colocou a mentira, o fanatismo, a manipulação e os especialistas formados em quinze minutos de pesquisa. Hoje, basta assistir a três vídeos para alguém se sentir médico, economista, historiador, cientista político e, se sobrar tempo, treinador da Seleção Brasileira. Não saber nunca foi o problema. Ninguém nasce sabendo. O verdadeiro problema é transformar a própria ignorância em trincheira e defender, até o último suspiro, aquilo que nunca se preocupou em compreender. Aprender exige esforço. Reconhecer um erro exige humildade. Mudar de opinião exige coragem. E talvez seja exatamente por isso que tanta gente prefira a confortável companhia das próprias certezas. A ignorância pode ser curada. A dúvida pode ser esclarecida. O conhecimento pode ser adquirido. Mas a estupidez voluntária é uma doença complicada: ela rejeita justamente o remédio que poderia salvá-la. Por isso, talvez devêssemos ser um pouco mais tolerantes com quem diz: — Não sei. Essa pessoa ainda pode aprender. Mais perigoso é aquele que não sabe absolutamente nada, mas olha para você com a segurança de quem acabou de conversar pessoalmente com Deus, Einstein e Google — e os três concordaram com ele. Ignorantes somos todos, em maior ou menor medida. A diferença está no que fazemos com aquilo que não sabemos. Alguns estudam. Alguns perguntam. Alguns escutam. E outros preferem continuar batendo no peito, defendendo suas certezas, como se mudar de opinião fosse uma derrota. Não é. Derrota é passar pela vida inteira sem aprender nada — e ainda ter orgulho disso. A ignorância abre espaço para o conhecimento. A dúvida abre caminho para a descoberta. Mas a estupidez, quando acompanhada de arrogância, fecha todas as portas. E ainda reclama que o mundo inteiro está errado. . © 2026 – Aroni Fagundes – Todos os direitos reservados

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