Candelária teve pouco crescimento populacional em mais de cinco décadas: o que explica esse cenário?

DADOS HISTÓRICOS - Indústria, agricultura, localização às margens da RSC-287 e potencial turístico fazem parte da realidade do município. Ainda assim, a população pouco avançou desde 1970. A pergunta agora é: quais fatores explicam esse crescimento tão modesto?

Candelária teve pouco crescimento populacional  em mais de cinco décadas: o que explica esse cenário?
Candelária - Vista aérea | Foto: Crédito Digiarte - Cedida

| Por Aroni Fagundes | Candeias News ▶ play


| Uma pergunta que Candelária precisa discutir
A reportagem anterior do Candeias News mostrou uma transformação profunda na relação entre o interior e a cidade ao longo das últimas décadas.
Por que Candelária cresceu tão pouco em população durante esse período?

Em 1970, o município tinha 26.559 habitantes. No Censo de 2022, eram 28.906. Isso representa um crescimento de aproximadamente 8,8% em 52 anos.
Considerando a estimativa populacional do IBGE para 2026, de 29.775 habitantes, o aumento em relação a 1970 chega a aproximadamente 12,1% em 56 anos.
É um dado que chama atenção e abre uma discussão que vai muito além de números.
IBGE — Candelária (RS)

| Mas Candelária não é uma cidade sem atividade econômica
A pergunta fica ainda mais interessante quando se observa o município atual.
Candelária está localizada às margens da RSC-287, importante ligação regional, e possui acesso também pelas RS-153, RS-400 e RST-410.
O município possui uma economia ligada à agricultura, indústria, comércio e serviços. Entre as atividades e empresas relacionadas pela própria Prefeitura estão setores como produção de calçados, colchões, móveis, produtos cerâmicos, estruturas metálicas, tabaco e produção agropecuária.

A Prefeitura também relaciona a Gazin entre as empresas de maior porte do município. Em 2012, quando a unidade completava cinco anos, o município informava que a empresa já proporcionava trabalho a cerca de 400 famílias e tinha sua produção distribuída para os mercados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

A presença da Calçados Beira Rio também representa um capítulo importante da industrialização local. Na época da implantação da unidade, o município destacava a disponibilidade de mão de obra qualificada e previa investimento superior a R$ 20 milhões.
Ou seja: há indústria, produção, trabalhadores, agricultura e uma localização logística relevante.

| Então, por que a população não acompanhou esse movimento?
Ter indústria significa necessariamente crescer em população?

Não necessariamente.
Uma indústria pode gerar empregos e movimentar a economia sem provocar, na mesma proporção, a chegada de novos moradores.
É justamente aí que surge uma questão que merece ser estudada:

Candelária está conseguindo transformar sua atividade econômica em atração e retenção de população?
Quantos trabalhadores das empresas locais moram no município?
Quantos vêm diariamente de outras cidades?
Quantos jovens candelarienses deixam o município depois de concluir os estudos?
E quantas pessoas que trabalham ou empreendem aqui escolheram efetivamente morar em Candelária?

São perguntas que os números econômicos, sozinhos, não respondem.
O custo de morar também entra nessa equação?
Outro tema que aparece nas conversas do cotidiano é o mercado imobiliário.
Há moradores que consideram elevados os preços de determinados imóveis e aluguéis em Candelária, inclusive quando fazem comparações com cidades maiores da região.

| Mas percepção não é estatística.
Por isso, uma pergunta objetiva merece ser feita:
Qual é hoje o custo real para uma família alugar ou comprar uma residência em Candelária em comparação com cidades  próximas ?

| E mais:
Esse custo está compatível com os salários praticados no município?
Essa relação entre renda, moradia e emprego pode ser importante para entender por que uma pessoa escolhe permanecer, sair ou se mudar para determinada cidade.
Não basta perguntar se existem casas.
É preciso saber se elas são acessíveis para quem pretende viver e trabalhar no município.

| A RSC-287: corredor de passagem ou oportunidade?
Candelária tem uma vantagem geográfica evidente: está às margens de uma das principais rodovias da região.
Mas existe uma diferença entre estar localizada em uma rodovia importante e conseguir transformar esse fluxo em desenvolvimento local.
Quantas pessoas passam diariamente pela RSC-287?
Quantas entram em Candelária?
Quantas consomem no município?
Quantas conhecem seus atrativos?
Quantas poderiam parar, comer, abastecer, comprar, dormir ou retornar como turistas?
A localização existe.
A questão é saber quanto dessa localização está sendo transformado em atividade econômica permanente.

| E o turismo?
O turismo aparece há anos como uma das possibilidades de desenvolvimento de Candelária.
O município possui atrativos naturais, históricos e culturais, além de eventos que fazem parte do calendário local. A própria Prefeitura relaciona entre os atrativos e eventos atividades como a Romaria do Botucaraí, Expocande, Semana Farroupilha, Natal Luz e outros eventos, além de destacar locais de interesse turístico.

| Mas existe uma pergunta inevitável:
O turismo está efetivamente funcionando como uma atividade econômica capaz de gerar um novo ciclo de desenvolvimento?
Não basta ter um lugar bonito.
É preciso saber quantas pessoas visitam, quanto tempo permanecem, onde se hospedam, onde comem, quanto gastam e se retornam.
É nessa diferença entre potencial turístico e atividade turística estruturada que talvez esteja uma das questões que merecem ser estudadas.

Quando se fala em turismo no Rio Grande do Sul, inevitavelmente surgem exemplos como Gramado e Canela.
Mas Candelária não é Gramado e não precisa ser.
As cidades possuem histórias, geografias, estruturas econômicas e trajetórias completamente diferentes.
A comparação interessante está em outra pergunta:
Como municípios que décadas atrás tinham uma dimensão muito menor conseguiram construir, ao longo do tempo, uma forte capacidade de atrair visitantes, investimentos e novos moradores?

| E, principalmente:
Existe alguma experiência daquele processo que possa ser estudada — e não simplesmente copiada — por Candelária?
A pergunta é válida justamente porque desenvolvimento raramente acontece por uma única razão.

| E os jovens?
Talvez uma das perguntas mais importantes seja esta:
Candelária consegue oferecer aos seus jovens motivos suficientes para permanecer?
Estudo, primeiro emprego, qualificação profissional, salários, carreira, moradia, lazer e perspectivas de futuro entram nessa decisão.
Se um jovem precisa sair para encontrar determinadas oportunidades, existe uma consequência demográfica que aparece anos depois.
Uma cidade pode perder população não apenas porque as pessoas vão embora.
Pode também crescer pouco porque os filhos de quem nasceu ali não permanecem.

| Candelária tem um problema de crescimento?
Não necessariamente.
Esse é outro ponto que precisa ser colocado com cuidado.
Crescimento populacional não é o único indicador de desenvolvimento.
Uma cidade pode aumentar produtividade, renda, arrecadação e qualidade de vida sem apresentar grande expansão demográfica.

O próprio IBGE registra atualmente para Candelária um PIB per capita de R$ 42.713,51, referente a 2023.
Portanto, a discussão não deveria ser simplesmente:
“Como fazer Candelária crescer?”
Talvez a pergunta mais adequada seja:
“Por que uma cidade com atividade econômica, localização estratégica e potencial turístico não apresentou um crescimento populacional maior — e o que explica essa trajetória?”
| Quem pensa a cidade?
É aqui que a discussão deixa de ser apenas uma reportagem e passa a ser uma pergunta para Candelária.
Empresários podem ter uma visão.
Trabalhadores, outra.
Jovens, outra.
Moradores antigos, outra.
Profissionais ligados ao turismo podem apontar determinados obstáculos.
Economistas podem analisar os números.
O poder público pode apresentar seus projetos e explicações.
E o setor imobiliário pode mostrar como está se comportando o mercado de moradias.
Nenhuma dessas visões, isoladamente, explica uma cidade.
É justamente o cruzamento delas que pode ajudar a entender o cenário.

| O que falta?
Talvez essa seja a pergunta errada.
O Candeias News prefere deixá-la aberta:
Candelária precisa crescer em população?
Precisa atrair mais empresas?
Precisa gerar empregos de maior remuneração?
Precisa reter os jovens?
Precisa tornar a moradia mais acessível?
Precisa transformar a RSC-287 em uma oportunidade maior?
Precisa estruturar melhor o turismo?
Ou talvez o caminho esteja em uma combinação de vários desses fatores.

Não cabe a uma reportagem dizer qual deve ser a resposta.
Cabe ao jornalismo colocar os dados sobre a mesa e provocar a discussão.

| UMA CIDADE DIANTE DE UMA PERGUNTA
Candelária não está parada.
Há indústria, agricultura, comércio, serviços, trabalhadores, empreendedores, eventos, patrimônio, natureza e uma localização estratégica.
Mas os números populacionais contam outra parte dessa história.
Em mais de cinco décadas, o município saiu de 26.559 habitantes para uma população estimada em 29.775 em 2026.
Um crescimento de aproximadamente 12%.
O número não determina sozinho o futuro de Candelária.
Mas levanta uma pergunta que merece ser discutida:
O que explica uma cidade com tantos ativos econômicos e territoriais ter crescido tão pouco em população — e o que os próprios pensadores de Candelária enxergam para os próximos anos?

Essa resposta não pertence a uma pessoa, a um partido ou a uma administração.
Pertence à cidade.

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Fontes: IBGE; Prefeitura Municipal de Candelária; informações públicas sobre atividade econômica e turismo.


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