O clima vai mexer com o bolso?

CANDELÁRIA E REGIÃO: El Niño coloca Candelária e o Vale do Rio Pardo diante de novas perguntas para o próximo verão

O clima vai mexer com o bolso?
Vista aérea município de Candelária | Crédito cedido por Digiartebn

| Por Aroni Fagundes | Candeias News ▶ play


O clima pode voltar a ter peso importante na economia de Candelária e do Vale do Rio Pardo nos próximos meses. Com a confirmação de um El Niño de forte intensidade, as previsões para a primavera indicam maior frequência de chuvas no Rio Grande do Sul — um cenário que pode favorecer algumas atividades, mas também criar dificuldades para o campo.
A pergunta que começa a surgir é direta: se o clima mudar, quanto isso pode mexer com o bolso de quem vive no campo, no comércio e na cidade?

| Chuva acima da média exige atenção
O Conselho Permanente de Agrometeorologia Aplicada do Rio Grande do Sul (Copaaergs), em boletim divulgado nesta semana, aponta condições favoráveis a chuvas acima da média no Estado entre outubro e dezembro. Em algumas áreas, os volumes podem chegar a até 200 milímetros acima da média histórica do trimestre.
O mesmo boletim alerta para períodos de chuva frequente e intensa, além da possibilidade de temporais, ventos fortes e granizo.
Para a agricultura, entretanto, chuva não significa automaticamente prejuízo.
A maior disponibilidade de água pode favorecer culturas de verão e pastagens. O problema aparece quando o excesso de umidade reduz as janelas para o trabalho no campo, dificulta o acesso de máquinas e prejudica plantio, emergência e desenvolvimento das lavouras.

| Candelária já conhece os dois lados
A realidade recente do município mostra como o clima pode interferir diretamente na economia rural.
Em fevereiro de 2025, Candelária decretou situação de emergência em razão da estiagem. Segundo levantamento da Emater/RS-Ascar divulgado pela Prefeitura, as perdas agrícolas ultrapassavam R$ 42 milhões.
A soja concentrava aproximadamente R$ 30 milhões das perdas estimadas. Também foram afetados milho, arroz, feijão, hortaliças e a produção pecuária.
Naquele período, a falta de água chegou também ao abastecimento de comunidades rurais, com a distribuição de quase 200 mil litros de água para mais de 20 localidades rurais.
Agora, o cenário climático previsto é diferente: o desafio pode ser justamente o excesso de chuva em determinados períodos.

| O tabaco merece atenção
Para uma região em que o tabaco possui forte participação na agricultura familiar, as condições climáticas também merecem acompanhamento.
Segundo a Afubra, a safra de tabaco 2025/26 no Rio Grande do Sul registrou 286.603 toneladas, queda de 5,5% em relação à safra anterior. A produtividade também recuou, enquanto a receita bruta dos produtores gaúchos ficou em aproximadamente R$ 5,07 bilhões.
Para a próxima safra, a entidade chama atenção para fatores como umidade excessiva, período de plantio, mão de obra, custos de produção e capacidade de cura do tabaco.
Ou seja: o clima é apenas uma parte de uma equação que envolve produção, preço, custos e comercialização.

| O problema não termina na propriedade rural
Quando uma safra é maior ou menor, os efeitos podem ultrapassar a porteira.
O produtor movimenta comércio, oficinas, combustíveis, transporte, serviços, cooperativas e outros setores. Por isso, uma alteração significativa na renda agrícola pode repercutir em diferentes pontos da economia regional.

| Mas existe também o outro lado.
Períodos de calor podem aumentar a procura por bebidas, sorvetes, ventiladores, aparelhos de climatização e outros produtos. Portanto, nem todo efeito climático representa necessariamente perda econômica.
O impacto depende de quem produz, do que é produzido, das condições de mercado e de como o clima efetivamente se comportará.

| O que sabemos — e o que ainda precisa ser respondido
Os dados oficiais permitem afirmar que o El Niño está presente e que o Rio Grande do Sul entra na primavera sob perspectiva de chuvas frequentes e, em determinados períodos, acima da média.
O que ainda não é possível afirmar é quanto isso representará, concretamente, para Candelária e para o Vale do Rio Pardo.

| É justamente aí que começa o dilema.

Quanto os produtores estão preparados?
Quais culturas podem ser mais afetadas?
O comércio espera aumento ou redução nas vendas?
Como os custos de produção podem se comportar?
E quanto uma eventual mudança na renda do campo pode repercutir na economia das cidades?

Porque, no fim, a questão não é apenas saber quanto vai chover.
É entender quanto o clima pode valer — ou custar — para a economia regional.

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Fontes:Copaaergs/Seapi – Governo do Rio Grande do Sul; CEMADEN/INMET/INPE; Prefeitura de Candelária/Emater-RS; Afubra.


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