Argentinos enfrentam dificuldades para pagar dívidas em meio à reforma econômica de Milei

MUNDO: Inadimplência alcança 16,3% do crédito destinado a pessoas físicas, enquanto fintechs concentram mais de 32% dos empréstimos em atraso

Argentinos enfrentam dificuldades para pagar dívidas em meio à reforma econômica de Milei
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  Edição|Aroni Fagundes|CN

BUENOS AIRES — A Argentina atravessa uma das fases mais delicadas da reforma econômica promovida pelo presidente Javier Milei. Enquanto o governo comemora a forte desaceleração da inflação e a reorganização das contas públicas, milhões de argentinos enfrentam dificuldades crescentes para manter as contas em dia e pagar empréstimos, cartões de crédito e outros compromissos financeiros.

Segundo dados do Instituto Equilibra, 16,3% do crédito concedido a pessoas físicas está em situação irregular, considerando empréstimos com pelo menos três meses de atraso. O problema atinge cerca de 5,8 milhões de pessoas, quase um terço dos tomadores de crédito do país.

O cenário revela uma contradição no processo de estabilização econômica. A inflação anual, que havia chegado a 289% no início de 2024, caiu para cerca de 34%. Ao mesmo tempo, a redução dos subsídios, a contenção dos salários e a perda de poder de compra aumentaram a necessidade de muitas famílias recorrerem ao crédito para financiar despesas básicas.

Crédito mais caro e renda pressionada
Durante anos de inflação elevada, os argentinos conviviam com uma peculiaridade: o aumento acelerado dos preços reduzia, em termos reais, o peso de determinadas dívidas. Com a estabilização da inflação, porém, esse mecanismo deixou de funcionar.

As taxas reais de juros passaram a ficar fortemente positivas e, em alguns casos, superaram 100% ao ano. Para famílias com salários estagnados ou crescendo abaixo do custo de vida, o resultado foi uma combinação difícil: crédito mais caro e menor capacidade de pagamento.

O problema aparece de forma particularmente evidente entre os usuários de carteiras digitais e outras empresas financeiras não bancárias. De acordo com os dados citados pelo Equilibra, mais de 32% do crédito concedido por fintechs e outros credores não bancários a pessoas físicas está em atraso.

Dados divulgados pela Agência Noticias Argentinas mostram que o crédito total às famílias argentinas chega a 82,8 trilhões de pesos, dos quais 16,3%, ou cerca de 13,5 trilhões de pesos, estão em situação irregular.

Fintechs ganham espaço — e também enfrentam maior inadimplência
A expansão das fintechs foi uma das transformações mais importantes do mercado financeiro argentino. O crédito digital alcançou milhões de pessoas que anteriormente tinham dificuldade de acesso ao sistema bancário tradicional.

O Banco Central da República Argentina informou que, em dezembro de 2025, 6,7 milhões de pessoas possuíam algum crédito digital, número que representava crescimento de 44% em relação ao ano anterior.

A facilidade de contratação, entretanto, também trouxe novos riscos. Com salários pressionados e menor capacidade de consumo, parte dos consumidores passou a utilizar diferentes modalidades de crédito simultaneamente para cobrir despesas correntes.

O resultado é um círculo difícil de romper: a família precisa de crédito para manter o consumo, mas o próprio endividamento reduz ainda mais a renda disponível para novas despesas.

Governo defende que problema é temporário
A administração Milei reconhece o aumento dos atrasos, mas rejeita a avaliação de que o país esteja diante de uma crise generalizada de crédito. O governo afirma que os índices mais recentes mostram estabilização da inadimplência e que o aumento dos atrasos é, em parte, consequência natural da expansão do mercado de crédito privado.

A equipe econômica também argumenta que o crédito ao setor privado argentino ainda representa uma parcela pequena da economia, cerca de 12% do Produto Interno Bruto, e que existe espaço para sua expansão.

O presidente Javier Milei, por sua vez, tem descartado a possibilidade de um programa de alívio da dívida financiado pelo governo e sustenta que os contratos de crédito são relações entre agentes privados.

Economistas, contudo, alertam que o problema pode ultrapassar a esfera individual. Com milhões de consumidores comprometidos com dívidas, a inadimplência pode afetar o consumo, o comércio e o próprio ritmo de recuperação econômica.

O paradoxo da recuperação argentina
A situação evidencia um dos principais desafios da estratégia econômica de Milei: estabilizar a economia sem provocar uma deterioração prolongada da renda disponível das famílias.

A queda da inflação melhora a previsibilidade econômica e reduz uma das principais distorções históricas da Argentina. Porém, a transição para uma economia com menor gasto público, menos subsídios e crédito mais caro tem produzido custos significativos no curto prazo.

Setores como construção, indústria e varejo enfrentam dificuldades, enquanto segmentos ligados às exportações, como agricultura e energia, apresentam desempenho mais favorável. A recuperação, portanto, ocorre de maneira desigual.

O desafio agora é fazer com que a estabilização macroeconômica se transforme em melhora efetiva do poder de compra.

Eleições de 2027 aumentam a pressão
O endividamento das famílias também começa a ganhar peso político. Sindicatos e grupos de devedores realizaram manifestações em Buenos Aires, criticando os juros elevados e cobrando medidas de proteção aos consumidores.

A questão ganha importância adicional porque a Argentina se aproxima das eleições presidenciais de 2027. A capacidade do governo de transformar a estabilização econômica em crescimento acompanhado de aumento da renda e do consumo poderá ser determinante para a avaliação popular da gestão Milei.

O ministro da Economia, Luis Caputo, busca alternativas para ampliar o mercado de crédito, enquanto bancos e instituições financeiras estudam formas de alongar prazos e reduzir custos para determinados devedores.

O problema, portanto, não está apenas no tamanho das dívidas, mas na capacidade das famílias de recuperar renda suficiente para pagá-las.

A Argentina conseguiu reduzir drasticamente a inflação, mas enfrenta agora uma nova etapa da reforma: fazer com que a estabilização econômica chegue ao orçamento das famílias.

Fonte: Financial Times/Folha de S.Paulo, Instituto Equilibra, Banco Central da República Argentina e Agencia Noticias Argentinas.
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